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Cristos da terra, nascidos Na Manjedoura do NÃO: Não têm terra nem saúde, Justiça nem instrução. Só conhecem 3 reis magos -que sempre lhes causam estragos-: Polícia, Imposto e Patrão.
São filhos de Zé Ninguém E de Maria Qualquer... Naturais de algum “Belém” Que não se sabe onde é E onde, entre espinhos e grotas, “o Judas perdeu as botas” jogando mais Lúcifer...
Frutos do chão duro e seco Como um rio que já foi... Vidas de pedras agudas... Terras de “Deus me perdoe”!... Essa terra, aquela vida Têm a tristeza doída De uma caveira de boi...
Irriga as maçãs do rosto Com o chuvisco da Esperança: Luta e sofre! Sofre e espera Na Fome que a dor amansa... Num prato – pesa a Pobreza; No outro – o peso é da Tristeza Que sua vida balança...
Pega um fiapo de Sonho E tece a própria mortalha. Toca o carro...mas, encalha Nas Pedras da Solidão... Seu canto traz a Amargura Dos lamentos de um Aboio... Da cicatriz de um arroio Na Face da Sequidão!
Planta um Pé de Sacrifício -nasce uma Flor de Saúva! Estende a Mão para a Chuva -e alcança o Olho do Sol... Só lhe dão, como presente: Pobreza...falta de escola... Leva mais chute que bola Em campo de futebol...
Mora num rancho de palha, Dorme num jirau de vara. E – em cima de um pau-de-arara, Deixa, um dia, o “seu” Sertão... Seu, uma vírgula, que, dele, Não possui nem mesmo os Braços Que são, apenas, pedaços Das posses de algum Patrão...
O Patrão manda no velho, Manda na velha, na filha. E na quadra. E na quadrilha... Na quadrinha...no quadrão... Entorce, o Cristo da Enxada, Cansado do mandonismo, Muda o nome de batismo Pra Silvino ou Lampião...
Cristo da terra, pregado Na cruz de um cabo de Enxada, Sua alma está calejada Pelos séculos de Dor... Traz dois olhos bem abertos -mas anda cego de tudo: cego, cabisbaixo e mudo pelas terras do Senhor!
Belo dia, um desses cristos Humilhados, oprimidos, Forma no rol dos Bandidos Contra a Opressão Social... E – é Jesuíno Brilhante, Corisco, Antônio Silvino Ou o “Capitão Virgulino” -“justiça” escrita a Punhal!
É – Liberato, Jurema, Moita Braba, Pitombeira, Zé Sereno, Mão Foveira Ou “Quelé do Pajeú”... É – Labareda – vingando A honra da irmã sertaneja Que ficou nos “Ora, veja” De um “cabo” de instinto cru...
Vai acender as fogueiras Da rebeldia matuta -contra a força absoluta dos senhores “Coronéis”. É- mais um, que troca a Enxada Pela “lei” de um pau-de-fogo, Onde a Morte ganha o jogo Cheio de lances cruéis! (...) Trecho de Canto dos Cristos da Terra/ Paulo Nunes Batista
Escrito por Gianote Araujo às 20h43
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