Três muié ou três irmã,
três cachôrra da mulesta,
eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.


A mais véia, a mais ribusta
era mermo uma tentação!
mimosa flô do sertão
que o povo chamava Ogusta.


A segunda, a Guléimina,
tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué critão
os oiá déssa minina.


Os ói dela paricia
duas istrêla tremendo,
se apagando e se acendendo
em noite de ventania.


A tercêra, era Maroca.
Cum um cóipo muito má feito.
Mas porém, tinha nos peito
dois cuscús de mandioca.


Dois cuscús, qui, prú capricho,
quando ela passou pru eu,
minhas venta se acendeu
cum o chêro vindo dos bicho.


Eu inté, me atrapaiava,
sem sabê das três irmã
qui ei vi im Puxinanã,
qual era a qui mi agradava.


Inscuiendo a minha cruz
prá sair desse imbaraço,
desejei, morrê nos braços,
da dona dos dois cuscús!

As flô de Puxinanã/Zé da Luz

Escrito por Gianote Araujo às 13h45


[]


A mitologia grega
é rica de ensinamento
para toda nossa vida
pois nos dá conhecimento
da natureza humana,
mostrando como se engana
nosso pobre pensamento.

Uma lenda dessas diz
que Dédalo trabalhava
para Minos, um rei grego
e a ele agradava
com as suas invenções,
pois suas fabricações
o rei muito apreciava.

Mas a glória durou pouco
sumiu a sua alegria.
Dédalo desagradou
ao rei o por isso ia
para sempre ser levado
e ficar aprisionado
numa torre muito fria.

Nesse lugar de prisão
numa ilha situado
Dédalo ficou cativo
do seu filho acompanhado.
Tanto o pai como o menino
cumpriam o seu destino
pela vida já traçado.

Porém Dédalo pensava
num modo de escapar.
Queria fugir dali
pra ninguém mais o pegar.
Levaria o seu filho
vencendo todo empecilho
para assim se libertar.

Depois de muito pensar,
encontrou uma saída
e disse para si mesmo
numa voz bem comovida:
"Vigiam terra e mar,
é por tanto pelo ar
que salvarei nossa vida."

Porque Minos, o rei grego,
mandava que a vigilância
fosse dura e rigorosa
sempre em toda circunstância
pela terra e pelo mar
sem deixar de revistar
tudo com toda constância

Por isso Dédalo pai
por ser bom visionário
enxergou a solução
no seu grande imaginário,
pensando em fabricar
boas asas e voar
de modo extraordinário.

O inteligente homem
ansioso por fazer
dois pares de asas boas,
começou a percorrer
o espaço que podia
e as penas que ele via
tratava de recolher.

Depois de ter recolhido
boas e diversas penas,
ele amarra com uns fios,
usando os dedos apenas
juntando bem as maiores
para depois as menores
com cera colar centenas.

Enquanto o pai trabalhava
com a mente e com os dedos
o filho se divertia
as penas sendo brinquedos
quando o vento as levava,
ele corria e pegava
eram esses seus folguedos.

Dédalo faz que as asas
tenham boa curvatura,
cuidando para que elas
se encaixem na estrutura,
quer fazer de modo tal
que chegando ao final
a obra tique segura.

Quando aprontou as asas
quis fazer um experimento
segurou nelas com jeito
e fazendo movimento
seu corpo ficou suspenso,
sentiu um prazer imenso
por causa de seu invento.

As asas funcionaram
de modo sensacional
Assim eles fugiriam
numa forma sem igual.
Pai e filho como aves
quebrando todas as traves
da nossa lei natural.

Pois o homem não é ave,
o seu lugar é o chão,
homem ter um par de asas
é um caso de aberração,
ou fruto da inteligência
de trabalho e paciência
de grandiosa invenção.

Pondo no filho as asas,
Dédalo muito feliz
ajeitando seu pequeno,
com forte voz ele diz:
Ícaro, filho querido
vou deixá-lo esclarecido
pois tu és um aprendiz.

Não vá voar muito baixo
aproximado do mar,
os vapores dessas águas
podem te atrapalhar.
Também não subas demais,
a cena não é capaz
do calor agüentar.

É preciso o equilíbrio
e voar numa altura
que não comporte perigo
e que seja mais segura.
Por isso fica ao meu lado
pois eu tenho mais cuidado
e melhor desenvoltura.

Dito isso, os dois partiram
cruzando o imenso céu,
da prisão dura saindo
deixando a ilha cruel.
Voavam com liberdade,
sentindo a felicidade
mais doce que o doce mel.

Os camponeses na roça
viram os dois seres voantes,
pensaram que eram deuses
voando por une instantes.
Ficaram admirados
todos eles encantados
com os dois seres distantes.

Ícaro, entusiasmado,
com o vôo se embelezou
quis atingir mais altura
e por isso ele deixou
do seu pai a companhia.
O sol alto o seduzia
alcançá-lo ele buscou.

O forte calor do sol
foi, porém seu inimigo,
as asas se desfaziam
era fatal o perigo
pois s cera derreteu-se
toda pena desprendeu-se
esse foi o seu castigo.

O menina agita os braços
procurando flutuar
como se ainda tivesse
as asas para voar.
Gritando aflito pro pai
porém sem jeito ele cai
nas profundezas do mar.

E Dédalo não conseguiu
do seu filho o salvamento.
Viu quando ele caía
mas o distanciamento
não permitiu sua ação
que trouxesse a salvação
para o filho no momento.

Viu o filho despencar-se
em busca do mar profundo,
tristeza maior que essa
não existe nesse mundo!
O sue Ícaro morreu
quando nas águas bateu
numa fração de segundo.

O pai muito amargurado
Das águas tira o menor,
Levou-o pra muito longe
Para dar-lhe a melhor
E bonita sepultura,
Que acolhesse com ternura
O seu tesouro maior.

Então Dédalo enterrou
o filho muito querido.
De ter feito aquelas asas
já estava arrependido
Alcançou a liberdade
mas lhe ficou a saudade
do menino assim perdido.

Em memória do seu filho
toda aquela região
ele chamou de Icária
pra sua recordação.
Chegou em paz na Sicília
deixando pra sempre a ilha
lugar da triste prisão.

Essa lenda tão fantástica
nos mostra com eficiência
a importância do invento,
do saber e da ciência,
mas nos dá uma lição
pra termos moderação
no uso da inteligência.

Ela também nos ensina
o amor pela virtude,
a busca do equilíbrio
seja em nós uma atitude.
O sucesso e a grandeza,
o prazer e a riqueza,
tudo isso nos ilude.

Dédalo foi muito sábio,
pois conhecia o segredo
das coisas da natureza,
no entanto tinha medo
e por isso advertiu
mas o filho não ouviu
morrendo, por isso, cedo.

Portanto toda ciência
quando é mal direcionada
passando dos seus limites
de uma forma exagerada
deixa de ser benfazeja
por importante que seja
torna amaldiçoada.

A morte de ícaro / Maércio Lopes Siqueira

Escrito por Gianote Araujo às 10h53


[]


...E eu que fui enjeitada
Só porque era furada.
Me botaram um pau na boca,
Sabão grudaram no furo,
Me obrigaram a levar água
Muitas vezes pendurada,
Muitas vezes num jumento.

Era aquele sofrimento,
As juntas enferrujadas.
Fiquei com o fundo comido.
Quando pensei que tivesse
Minha batalha cumprido,
Um remendo me fizeram:
Tome madeira no fundo
E tome água e leva água,
E tome água e leva água.

Daí nasceu minha mágua:
O pau da boca caía,
Os beiços não resistiam.
Me fizeram um troca-troca:
Lá vem o fundo pra boca,
Lá vai o pau para o fundo.
Que trocado mais sem graça
Na frente de todo mundo.
E tome água e leva água
E tome água e leva água.

Já quase toda enfadada,
Provei lavagem de porco,
Ai mexeram de novo:
Botaram o pau na beirada.
E assim desconchavada,
Medi areia e cimento,
Carreguei muito concreto
Molhado duro e friento,
Sofri de peitos aberto,
Levei baque dei peitada.

Me amassaram as beiradas,
Cortaram minhas entranhas.
Lá fui eu assar castanha,
Fui por fim escancarada.
Servi de cocho de porco
Servi também de latada.

Se a coisa não complica,
Talvez eu seja uma bica
Pela próxima invernada.
E inverno é chuva, é água,
E eu encherei outras latas
Cumprindo minha jornada.

Agruras da Lata D'água / Jessier Quirino

Escrito por Gianote Araujo às 00h28


[]


      ( . . . )

 

-Com licença, Deputado,

Espere só mais um pouco.

Talvez eu seja até louco,

No que pretendo fazer.

Mas peço, com educação,

Dê-se sua permissão,

Pois quero lhe responder!  

 

O Deputado assustou-se

Com a firmeza da voz.

E perguntou, já feroz,

A que devo essa ousadia?

Por acaso, eu lhe conheço?

Ofensa eu não esqueço...

Cuidado com a valentia!

 

E o Professor, muito calmo,

Disse, então, ao Deputado:

Eu sou o "desocupado",

Conforme fala o senhor.

Mas, aqui não me atrapalho,

Pois vivo do meu trabalho

Honesto, de Professor.

 

O senhor falou primeiro,

Seus colegas aplaudiram,

Sem pensar no que ouviram...

Se era justo, ou não.

Vou então lhe responder

E este povo vai ver

Quem tem, de fato, razão.

 

Respondendo ao seu discurso,

Eu começo lhe dizendo:

O povo inteiro está vendo

Quem só não vê é o senhor

Que, na luta pela vida,

Quem sofre mais, nessa lida,

É o pobre do Professor.

 

Teria o senhor coragem

De aqui, neste Plenário

Declarar o seu salário

Sem esconder um vintém?

Quem é que tem mais dinheiro?

O senhor é fazendeiro...

E o Professor nada tem!

 

E quantas horas por dia,

Quantos dias por semana

O senhor, que se ufana,

Trabalha mesmo, em verdade?

Se eu trabalhasse tanto,

Deputado, eu lhe garanto,

Vivia de caridade!

  

         ( . . . )

 

Trecho de Resposta do Professor Desocupado ao Deputado Valente / Compadre Lemos

 

 

Escrito por Gianote Araujo às 23h12


[]


Cristos da terra, nascidos
Na Manjedoura do NÃO:
Não têm terra nem saúde,
Justiça nem instrução.
Só conhecem 3 reis magos
-que sempre lhes causam estragos-:
Polícia, Imposto e Patrão.

São filhos de Zé Ninguém
E de Maria Qualquer...
Naturais de algum “Belém”
Que não se sabe onde é
E onde, entre espinhos e grotas,
“o Judas perdeu as botas”
jogando mais Lúcifer...

Frutos do chão duro e seco
Como um rio que já foi...
Vidas de pedras agudas...
Terras de “Deus me perdoe”!...
Essa terra, aquela vida
Têm a tristeza doída
De uma caveira de boi...

Irriga as maçãs do rosto
Com o chuvisco da Esperança:
Luta e sofre! Sofre e espera
Na Fome que a dor amansa...
Num prato – pesa a Pobreza;
No outro – o peso é da Tristeza
Que sua vida balança...

Pega um fiapo de Sonho
E tece a própria mortalha.
Toca o carro...mas, encalha
Nas Pedras da Solidão...
Seu canto traz a Amargura
Dos lamentos de um Aboio...
Da cicatriz de um arroio
Na Face da Sequidão!

Planta um Pé de Sacrifício
-nasce uma Flor de Saúva!
Estende a Mão para a Chuva
-e alcança o Olho do Sol...
Só lhe dão, como presente:
Pobreza...falta de escola...
Leva mais chute que bola
Em campo de futebol...

Mora num rancho de palha,
Dorme num jirau de vara.
E – em cima de um pau-de-arara,
Deixa, um dia, o “seu” Sertão...
Seu, uma vírgula, que, dele,
Não possui nem mesmo os Braços
Que são, apenas, pedaços
Das posses de algum Patrão...

O Patrão manda no velho,
Manda na velha, na filha.
E na quadra. E na quadrilha...
Na quadrinha...no quadrão...
Entorce, o Cristo da Enxada,
Cansado do mandonismo,
Muda o nome de batismo
Pra Silvino ou Lampião...

Cristo da terra, pregado
Na cruz de um cabo de Enxada,
Sua alma está calejada
Pelos séculos de Dor...
Traz dois olhos bem abertos
-mas anda cego de tudo:
cego, cabisbaixo e mudo
pelas terras do Senhor!

Belo dia, um desses cristos
Humilhados, oprimidos,
Forma no rol dos Bandidos
Contra a Opressão Social...
E – é Jesuíno Brilhante,
Corisco, Antônio Silvino
Ou o “Capitão Virgulino”
-“justiça” escrita a Punhal!

É – Liberato, Jurema,
Moita Braba, Pitombeira,
Zé Sereno, Mão Foveira
Ou “Quelé do Pajeú”...
É – Labareda – vingando
A honra da irmã sertaneja
Que ficou nos “Ora, veja”
De um “cabo” de instinto cru...

Vai acender as fogueiras
Da rebeldia matuta
-contra a força absoluta
dos senhores “Coronéis”.
É- mais um, que troca a Enxada
Pela “lei” de um pau-de-fogo,
Onde a Morte ganha o jogo
Cheio de lances cruéis! 
        (...)
Trecho de Canto dos Cristos da Terra/ Paulo Nunes Batista

Escrito por Gianote Araujo às 20h43


[]


No tempo em que as estradas eram poucas no sertão;
Tangerinos e boiadas cruzavam a região;
entre volante e cangaço;
Quando a lei era do braço;
do jagunço pau mandando do coronel invasor;
Dava-se no interior esse caso inusitado;
Quando o Palmera das Antas pertencia ao capitão;
Justino Bento da Cruz;
Nunca faltou diversão;
vaquejada, canturia, procissão e romaria,sexta-feira da Paixão;
Na quinta-feira maior, Dona Maria das Dores no salão paroquial;
Reunia os moradores, depois de uma pré-eleção ao lado do capitão;
Escalava a seleção, de atriz e atores;
Todo ano era um Jesus, um Caífaz e um Pilatos;
Só nao mudavam a cruz, o verdúguio e os mal-tratos;
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor;
Caífaz foi Cipriano;
Pilatos foi Nicanor;
Duas cordas paralelas, separava a multidão;
Pra que pudessem entre elas, caminhar a procissão;
Quincas conduzindo a cruz;
Foi e num foi advertia, um cinturião pervesso, que com força le batia;
Era pra bater maneiro, Bastião não entendia;
Devido um grande pifão, que tomou naquele dia;
do vinho que o capelão, guardava na sacristia;
Cristo dizia: "ô rapaz, ve se bate devagar, já to todo encalombado assim não vou aguentar,
ta com a gota pra duer, ou tu para de bater ou a gente vai brigar; jogo ja essa cruz fora, to ficando aperriado, vou morrer antes da hora de ficar crucificado";
O pior é q o malvado, fingia que não ouvia;
e além de bater com força, ainda se divertia;
espiava pra jesus, fazia pouco e dizia:
"que Cristo froxo é você, que chora na procissão?
Jesus pelo que se sabe, num era mole assim não;
eu to batendo com pena, tu vai ver o que é bom;
na subida da ladeira, da venda de fenelon;
o couro vai ser dobrado!
até chegar no mercado, da cuíca muda o tom"
Naquele momento ouviu-se, um grito na multidao;
era Quincas que com raiva, sacudiu a cruz no chão;
e partiu feito um maluco pra cima de Bastião;
Se travaram num tabefe, pontapé e cabeçada;
Madalena levou queda;
Pilatos levou pancada;
Deram um cacete em Caífaz, que até hoje não faz;
nem sente gosto de nada;
Dismancharam a procissão o cacete foi pesado;
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado;
Acertaram um cocorote, na careca de Timotéo;
que inté hoje é aluado;
Inté mesmo São José, que não é de confusão;
na ansia de defender, o seu filho de criação;
aproveitou a garapa, pra dar um monte de tapa;
na cara do bom ladrão;
A briga só terminou, quando o doutor delegado;
interviu e separou, cada santo pro seu lado;
Desde que o mundo se fez;
foi essa a primeira vez;
que Jesus foi pro xadrez...
MAS NUM FOI CRUXIFICADO!!

Jesus no Xadrez / Chico Pedrosa

Escrito por Gianote Araujo às 13h50


[]


Semore adotei a doutrina
Ditada pelo rifão,
De ver-se a cara do homem
Mas não ver-se o coração,
Entre a palavra e a obra
Há enorme distinção.

Zé-pitada era um rapaz
Que em tempos idos havia
Amava muito uma moça
O pai dela não queria...
O desastre é um diabo
Que persegue a simpatia.

Vivia o rapaz sofrendo
Grande contrariedade
Chorava ao romper da aurora
Gemia ao virar da tarde
A moça era como um pássaro
Privado da liberdade.

Porque João-mole, o pai dela
era um velho perigoso,
Embora que Zé-pitada
Dizia ser revoltoso,
Adiante o leitor verá
Qual era o mais valoroso.

Marocas vivia triste
Pitada vivia em ânsia,
Ele como rapaz moço
No vigo de sua infância,
Falar depende de fôlego
Porém obrar é sustância.

Disse pitada a Marocas,
Eu preciso lhe falar
Já tenho toda certeza,
Que é necessário a raptar,
À noite espere por mim
Que havemos de contratar.

Disse Marocas a Zezinho:
Papai não é de brincadeira,
Diz Zé-pitada, ora esta!
Você pode ver-me as tripas,
Poré não verá carreira.

Diga a que hora hei de ir,
Eu dou conta do recado
Inda seu pai sendo fogo,
Por mim será apagado,
Eu juro contra minh’alma
Que seu pai corre assombrado.

Disse Marocas, meu pai
Tem tanta disposição
Que uma vez tomou um preso
Do poder de um batalhão,
Balas choviam nos ares,
O sangue ensopava o chão.

Disse ele, eu uma vez
Fui de encontro a mil guerreiros,
Entrei pela retaguarda,
Matei logo os artilheiros,
Em menos de dez minutos
O sangue encheu os barreiros.

Disse Marocas, pois bem
Eu espero e pode ir,
Porém encare a desgraça,
Se acaso meu pai nos vir,
Meu pai é de ferro e fogo,
É duro de resistir.

Marocas não confiando
Querendo experimentar,
Olhou para Zé-pitada
Fingindo querer chorar,
Disse meu pai acordou,
E nos ouviu conversar.

Valha-me Nossa Senhora!
Respondeu ele gemendo,
Que diabo eu faço agora?!...
E caiu no chão tremendo,
Oh! Minha Nossa Senhora!
A vós eu me recomendo

Nisso um gato derrubou
Uma lata na dispensa,
Ele pensou que era o velho,
Gritou, oh!, que dor imensa!.
Parece qu’stou ouvindo
Jesus lavrar-me a sentença.

A febre já me atacou,
Sinto frio horrivelmente.
Com muita dor de cabeça,
Uma enorme dor de dente,
Esta me dando a erisipela,
Já sinto o corpo dormente.

Antes eu hoje estivesse
Encerrado na cadeia,
De que morrer na desgraça,
E d’uma morte tão feia,
Veja se pode arrastar-me,
Que minha calça está cheia.

Por alma de sua mãe,
E pela sagrada paixão,
Me arraste por uma perna
E me bote no portão,
A moça quis arrastá-lo,
Não teve onde pôr a mão.

Ela tirou-lhe a botina,
Para ver se o arrastava,
Mas era uma fedentina,
Que a moça não suportava,
Aquela matéria fina
Já todo o chão alagava.

Disse a moça: quer um beijo?
Para ver se tem melhora?
Ele com cara de choro,
Respondeu-lhe, não, senhora,
Beijo não me salva a vida,
Eu só desejo ir-me embora.

Então lhe disse Marocas,
Desgraçado!... eu bem sabia,
Que um ente de teu calibre,
Não pode ter serventia.
Creio que fostes nascido
Em fundo de padaria.

Meu pai ainda não veio
Eu hoje estou sozinha,
Zé-pitada aí se ergueu,
E disse, oh minha santinha!
A moça meteu-lhe o pé,
Dizendo: vai-te murrinha!

E deu-lhe ali uma lata,
Dizendo: está aí o poço,
Você ou lava o quintal
Ou come um cachorro ensolso,
Se não eu meto-lhe os pés
Não lhe deixo inteiro um osso.
       ( . . . )

Trecho de As Proezas de Um Nmorado Mofino / Leandro Gomes de Barros

Escrito por Gianote Araujo às 22h52


[]


Caro leitor se não lestes

mas alguém já vos contou

que nos remotos passados

até barata falou

porém isto foi no tempo

quando o trancoso reinou

 

Eu ainda estou lembrado

que meus bisavós contavam

muitas histórias passadas

de quando os bichos falavam

como bem fosse a da festa

quando os cachorros casavam

 

Nesse tempo os animais

era tudo interesseiro

só se casavam com bichas

que os pais tinham dinheiro

tanto que devido a isto

um gato morreu solteiro

 

Contudo sempre viviam

em regimes sociais

respeitando aos governos

nos atos policiais

crendo no catolicismo

conforme a lei de seus pais

 

Não eram lá tão chegados

a nossa religião

mas não desvalorizavam

nem faziam mangação

dizem até que macaco

deu provas de bom cristão

 

Tamanduá era padre

como todos sabem disto

naquele tempo também

pelos antigos foi visto

uma lavadeira velha

lavando a roupa de Cristo

 

Muitos viviam da arte

outra parte do roçado

na vida comercial

quem era rico e letrado

aqueles mais pobrezinhos

viviam do alugado

 

Como bem a lagartixa

o calango e o tejá

que são pelados de tudo

da mesma forma o tatu

que tem somente o casco

e aquilo faz pufá

       

     ( . . . )

 

Trecho de A Festa Dos Cachorros / José Pacheco

Escrito por Gianote Araujo às 11h45


[]


Na cidade de Macaé
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Desejava possuir
Todo objeto que via

Esse duque era compadre
De um pobre muito atrasado
Que morava em sua terra
Num rancho todo estragado
Sustentava seus filhinhos
Na vida de alugado.

Se vendo o compadre pobre
Naquela vida privada
Foi trabalhar nos engenhos
Longe da sua morada
Na volta trouxe um cavalo
Que não servia pra nada

Disse o pobre à mulher:
— Como havemos de passar?
O cavalo é magro e velho
Não pode mais trabalhar
Vamos inventar um "quengo"
Pra ver se o querem comprar.

Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado
No fiofó do cavalo
Foi o dinheiro guardado

Do fiofó do cavalo
Ele fez um mealheiro
Saiu dizendo: — Sou rico!
Inda mais que um fazendeiro,
Porque possuo o cavalo
Que só defeca dinheiro.

Quando o duque velho soube
Que ele tinha esse cavalo
Disse pra velha duquesa:
—Amanhã vou visitá-lo
Se o animal for assim
Faço o jeito de comprá-lo!

Saiu o duque vexado
Fazendo que não sabia,
Saiu percorrendo as terras
Como quem não conhecia
Foi visitar a choupana,
Onde o pobre residia.

Chegou salvando o compadre
Muito desinteressado:
— Compadre, Como lhe vai?
Onde tanto tem andado?
Há dias que lhe vejo
Parece está melhorado...

—É muito certo compadre
Ainda não melhorei
Porque andava por fora
Faz três dias que cheguei
Mas breve farei fortuna
Com um cavalo que comprei.

—Se for assim, meu compadre
Você está muito bem!
É bom guardar o segredo,
Não conte nada a ninguém.
Me conte qual a vantagem
Que este seu cavalo tem?

Disse o pobre: —Ele está magro
Só o osso e o couro,
Porém tratando-se dele
Meu cavalo é um tesouro
Basta dizer que defeca
Níquel, prata, cobre e ouro!

Aí chamou o compadre
E saiu muito vexado,
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado.

Então exclamou o velho:
— Só pude achar essas três!
Disse o pobre: — Ontem à tarde
Ele botou dezesseis!
Ele já tem defecado,
Dez mil réis mais de uma vez.

—Enquanto ele está magro
Me serve de mealheiro.
Eu tenho tratado dele
Com bagaço do terreiro,
Porém depois dele gordo
Não quem vença o dinheiro...

Disse o velho: — meu compadre
Você não pode tratá-lo,
Se for trabalhar com ele
É com certeza matá-lo
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo!

— Meu compadre, este cavalo
Eu posso negociar,
Só se for por uma soma
Que dê para eu passar
Com toda minha família,
E não precise trabalhar.

O velho disse ao compadre:
— Assim não é que se faz
Nossa amizade é antiga
Desde os tempo de seus pais
Dou-lhe seis contos de réis
Acha pouco, inda quer mais?

— Compadre, o cavalo é seu!
Eu nada mais lhe direi,
Ele, por este dinheiro
Que agora me sujeitei
Para mim não foi vendido,
Faça de conta que te dei!

O velho pela ambição
Que era descomunal,
Deu-lhe seis contos de réis
Todo em moeda legal
Depois pegou no cabresto
E foi puxando o animal.

Quando ele chegou em casa
Foi gritando no terreiro:
— Eu sou o homem mais rico
Que habita o mundo inteiro!
Porque possuo um cavalo
Que só defeca dinheiro!

Pegou o dito cavalo
Botou na estrebaria,
Milho, farelo e alface
Era o que ele comia
O velho duque ia lá,
Dez, doze vezes por dia...

Aí o velho zangou-se
Começou loga a falar:
—Como é que meu compadre
Se atreve a me enganar?
Eu quero ver amanhã
O que ele vai me contar.

Porém o compadre pobre,
(Bicho do quengo lixado)
Fez depressa outro plano
Inda mais bem arranjado
Esperando o velho duque
Quando viesse zangado...

O pobre foi na farmácia
Comprou uma borrachinha
Depois mandou encher ela
Com sangue de uma galinha
E sempre olhando a estrada
Pré ver se o velho vinha.

Disse o pobre à mulher:
— Faça o trabalho direito
Pegue esta borrachinha
Amarre em cima do peito
Para o velho não saber,
Como o trabalho foi feito!

Quando o velho aparecer
Na volta daquela estrada,
Você começa a falar
Eu grito: —Oh mulher danada!
Quando ele estiver bem perto,
Eu lhe dou uma facada.

Porém eu dou-lhe a facada
Em cima da borrachinha
E você fica lavada
Com o sangue da galinha
Eu grito: —Arre danada!
Nunca mais comes farinha!

Quando ele ver você morta
Parte para me prender,
Então eu digo para ele:
—Eu dou jeito ela viver,
O remédio tenho aqui,
Faço para o senhor ver!

—Eu vou buscar a rabeca
Começo logo a tocar
Você então se remaxa
Como quem vai melhorar
Com pouco diz: —Estou boa
Já posso me levantar.

Quando findou-se a conversa
Na mesma ocasião
O velho ia chegando
Aí travou-se a questão
O pobre passou-lhe a faca,
Botou a mulher no chão.

O velho gritou a ele
Quando viu a mulher morta:
Esteja preso, bandido!
E tomou conta da porta
Disse o pobre: —Vou curá-la!
Pra que o senhor se importa?

—O senhor é um bandido
Infame de cara dura
Todo mundo apreciava
Esta infeliz criatura
Depois dela assassinada,
O senhor diz que tem cura?

Compadre, não admito
O senhor dizer mais nada,
Não é crime se matar
Sendo a mulher malcriada
E mesmo com dez minutos,
Eu dou a mulher curada!

Correu foi ver a rabeca
Começou logo a tocar
De repente o velho viu
A mulher se endireitar
E depois disse: —Estou boa,
Já posso me levantar...

O velho ficou suspenso
De ver a mulher curada,
Porém como estava vendo
Ela muito ensanguentada
Correu ela, mas não viu,
Nem o sinal da facada.

O pobre entusiasmado
Disse-lhe: —Já conheceu
Quando esta rabeca estava
Na mão de quem me vendeu,
Tinha feito muitas curas
De gente que já morreu!

No lugar onde eu estiver
Não deixo ninguém morrer,
Como eu adquiri ela
Muita gente quer saber
Mas ela me está tão cara
Que não me convém dizer.

O velho que tinha vindo
Somente propor questão,
Por que o cavalo velho
Nunca botou um tostão
Quando viu a tal rabeca
Quase morre de ambição.

—Compadre, você desculpe
De eu ter tratado assim
Porque agora estou certo
Eu mesmo fui o ruim
Porém a sua rabeca
Só serve bem para mim.

—Mas como eu sou um homem
De muito grande poder
O senhor é um homem pobre
Ninguém quer o conhecer
Perca o amor da rabeca...
Responda se quer vender?

—Porque a minha mulher
Também é muito estouvada
Se eu comprar esta rabeca
Dela não suporto nada
Se quiser teimar comigo,
Eu dou-lhe uma facada.

—Ela se vê quase morta
Já conhece o castigo,
Mas eu com esta rabeca
Salvo ela do perigo
Ela daí por diante,
Não quer mais teimar comigo!

Disse-lhe o compadre pobre:
—O senhor faz muito bem,
Quer me comprar a rabeca
Não venderei a ninguém
Custa seis contos de réis,
Por menos nem um vintém.

O velho muito contente
Tornou então repetir:
—A rabeca já é minha
Eu preciso a possuir
Ela para mim foi dada,
Você não soube pedir.

Pagou a rabeca e disse:
—Vou já mostrar a mulher!
A velha zangou-se e disse:
—Vá mostrar a quem quiser!
Eu não quero ser culpada
Do prejuízo que houver.


           (...)

Trecho de O Cavalo que Defecava Dinheiro/ Leandro Gomes de Barros

Escrito por Gianote Araujo às 15h24


[]


Seus Dotôres Deputado
falo sem tutubiá
pra mostrá que nós matuto
sabe se pronunciá
dizê que ta um presídio
com dó e matuticídio
a vida nesse lugá

O Brasí surgiu de nós
nós tudo que vem da massa
deram um nó no mêi de nós
que nós desse nó não passa
e de quatro em quatro ano
vem vocês com o veio plano
desata o nó e se abraça

Tamo chêi dessa bostice
de promessa e eleição
dos que vem de vez em quanto
se rindo, estendeno a mão
candidato a caloteiro
aprendiz de trapaceiro
corruto, falso e ladrão.

A coisa ta enveigada
ta ruim de devenveigá
meu sistema neuvosíssimo
vejo a hora se estorá
se estóra eu não engano
cuma diz o americano
na matança eu tem norrá.

Quero que vocês refrita
o falá da minha fala
pelo cano do revóve
magine o tamãe da bala.

Vocês que véve arrimado
nas bengala do podê
dou um chuto na bengala
mode alejado corrê
dou dedo, faço munganga
canto Ouvira do Ypiranga
e mando tudo se fudê.

Acunho logo a tramela
nas porta da corrução
toco fogo na lixeira
e passo de mão em mão
corto língua de quem mente
quebro três ou quatro dente
dos Deputado risão.

Político que come uva
em plena safra de manga
vai pra lei dos desperdiço
nas faca dos meus capanga.

Se eu der um tiro no mato
e bater num marinheiro
é porque tem mais honesto
do que cabra trambiqueiro
diante dessa nutiça
não haverá injustiça
é a lei dos cangaceiro.

Os deputado bom de pêia
eu tiro o "W" do nome
tiro vírgula dos discurso
reticença e pisilone
sapeco lei pra matuto
meto bala nesses puto
e um viva no microfone.

Matuto que tem saúde
pro trabaio ele é capaz
nós se vira, arruma água
as sementes e o preço em paz
não vai sê protecionismo
é a lei do Nordestinismo
dos Problemas Matutais.

Debuiado este discurso
pros Dotôre e Deputado
ta dizido minha meta
pra cem bilhão de roçado
depois não venham dizê
que foi golpe de pudê
proque não foram avisado

Partido dos Cangaceiro
o PC dos natura
pela lei da ignorança
do Congresso Federá
assinado Capitão
Virgulino Lampião
Deputado Federá.

 

Virgulino deputado federá / Jessier Quirino

Escrito por Gianote Araujo às 13h31


[]


Um cabra de Lampião
por nome Pilão Deitado
que morreu numa trincheira
um certo tempo passado
agora pelo sertão
anda correndo visão
fazendo malassombrado.

E foi quem trouxe a notício
que viu Lampião chegar
o inferno nesse dia
faltou pouco pra virar
incendiou-se o mercado
morreu tanto cão queimado
que faz pena até contar

Morreram a mãe Conguinha
o pai Forrobodó
cem netos de Parafuso
um cão chamado Cotó
escapuliu Boca Ensoça
e uma moleca moça
quase queimava o totó

Morreram cem negros velhos
que não trabalhavam mais
um cão chamado Traz Cá
Vira-Volta e Capataz
Tromba Suja e Bigodeira
um cão chamado Goteira
cunhado de satanás.

Vamos tratar na chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu:


Quem é você, cavalheiro?

Moleque, eu sou cangaceiro:
Lampião lhe respondeu.
- Moleque, não; sou vigia
e não sou seu parceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é o primeiro:
- Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.

Então esse tal vigia
que trabalha no portão
dá pisa que voa cinza
não procura distinção
o negro, escreveu não leu
o macaiba comeu
ali não se usa perdão.

O vigia disse assim:
fique fora que eu entro
vou conversar com o chefe
no gabinete do centro
por certo ele não lhe quer
mas conforme o que disser
eu levo o senhor pra dentro.

Lampião disse: vá logo
quem conversa perde hora
vá depressa e volte já
eu quero pouca demora
se não me derem ingresso
eu viro tudo asavesso
toco fogo e vou embora.

O vigia foi e disse
e satanás no salão:
saiba a vossa senhoria
que aí chegou Lampião
dizendo que quer entrar
e eu vim lhe perguntar
se dou-lhe ingresso ou não.

- Não senhor, satanás disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora!
eu já estou com vontade
de botar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.

- Lampião é um bandido
ladrão da honestidade
só vem desmoralizar
a nossa propriedade
e eu não vou procurar
sarna pra me coçar
sem haver necessidade.

Disse o vigia: patrão
a coisa vai arruinar
eu sei que ele se dana
qunado não puder entrar
satanás disse: isso é nada
convide aí a negrada
e leve os que precisar

- Leve cem dúzias de negros
entre homem e mulher
vá lá na loja de ferragem
tire as armas que quiser
é bom avisar também
pra vir os negros que tem
mais compadre de Lucifer

E reuniu-se a negrada
primeiro chegou Fuchico
com o bacamarte velho
gritando por Cão de Bico
que trouxesse o Pau de Prensa
e fosse chamar Tangença
em casa de Maçarico.

E depois chegou Cambota
endireitando o boné
Formigueiro e Trupe-Zupe
e o crioulo Quelé
chegou Caé e Pacáia
Rabisca e Cordão de Saia
e foram chamar Bazé.

Veio uma diaba moça
com a calçola de meia
puxou a vara da cerca
dizendo: a coisa está feia
hoje o negócio se dana!
E gritou: êta baiana
agora a ripa vadeia!

E saiu a tropa armada
em direção do terreiro
com faca, pistola e facão
cravinote e granadeiro
uma negra também vinha
com a trempe da cozinha
e o pau de bater tempero.

Quando Lampião deu fé
da tropa negra encostada
disse: só na Abissínia
oh! tropa preta danada!
o chefe do batalhão
gritou de arma na mão;
- Toca-lhe fogo, negrada!

Nessa voz ouviu-se tiros
que só pipoca no caco
Lampião pulava tanto
que parecia um macaco
tinha um negro neste meio
que durante o tiroteio
brigou tomando tabaco.

Acabou-se o tiroteio
por falta de munição
mas o cacête batia
negro rolava no chão
pau e pedra que achavam
era o que as mãos pegavam
sacudiam em Lampião.

- Chega
traz um armamento!
(assim gritava o vigia)
traz a pá de mexer doce
lasca os ganchos de caria
traz um bilro de Macau
corre, vai buscar um pau
na cêrca da padaria!

Lucifer mais satanás
vieram olhar do terraço
todos contra Lampião
de cacête, faca e braço
o comandante no grito
dizia: briga bonito
negrada, chega-lhe o aço!

Lampião pôde apanhar
uma caveira de boi
sacudiu na testa dum
ele só fez dizer: oi!...
Ainda correu dez braças
e caiu enchedo as calças
mas eu não sei dizer o que foi.

Esatava travada a luta
duma hora fazia
a poeira cobria tudo
negro embolava e gemia
porém Lampião ferido
ainda não tinha sido
devido a grande energia.

Lampião pegou um seixo
e rebolou-o num cão
mos o que; arrebentou
a vidraça do oitão
saiu fogo azulado
incendiou o mercado
e o armazém de algodão.

Satanás com esse incêndio
tocou no búzio chamando
corretam todos os negros
que se achavam brigando
Lampião pegou a olhar
não vendo com quem brigar
também foi se retirando.

Houve grande prejuízo
no inferno nesse dia
queimou-se todo dinheiro
que satanás possuia
queimou-se o livro de pontos
perdeu-se vinte mil contos
somente em mercadoria.

Reclamava Lucifer
: horror mais não precisa
os anos ruins de safra
agora mais esta pisa
se não houver bom inverno
tão cedo aqui no inferno
ninguém compra uma camisa.

Leitores, vou terminar
tratando de Lampião
muito embora que não possa
vou dar a explicação
no inferno não ficou
no céu também não entrou
por certo está no sertão.

Quem dúvida desta história
pensar que não foi assim
querer zombar do meu sério
não acreditando em mim
vá comprar papel moderno
escreva para o inferno
mande saber de Caim.

"A Chegada de Lampião no inferno/José Pacheco

Escrito por Gianote Araujo às 15h47


[]


"Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma ganbiarra véa
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um taró
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão, cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessa por minuto.

Anunciar a chegança
Do corruto ganhador
Pedir o "V" da vitória
Dos dedo dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.
          ( . . . )

Trecho de Comicío em Beco Estreito/ Jessier Quirino

Escrito por Gianote Araujo às 22h09


[]


Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra.

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia.

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê...

As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça...
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça...

Quando eu vejo essa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá...

             ... Desejo, prá quê negá?
             Desejo ser um caçote,
             cum dois óio dêsse tamanho
             Prá ver aquele magóte
             de môça tumando banho!

            " A Cacimba" Zé da Luz

Escrito por Gianote Araujo às 22h02


[]


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